A poesia do sentir...
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Innervisions
Com o dono do medo me esfrego - e durmo
Com a asa do sono, me esvasio e danço
A paixão me toma... e fujo
Embrace
Sem coragem, do grito ao canto
Sem sossego, do encanto ao gesto
A vida me encontra... e mato!
Sonho
Pássaro aprisionado de minha alma
a suspirar, tão levemente,
doces promessas...
Compreendo
Em meu espelho, olho teus olhos
Em tuas águas, respingo
Em meus sonhos... te perdes de mim
As Horas
No desencanto das horas adormeço.
Escoam-me as águas tranquilas na travessia do medo,
e espreita-nos, ao "nós" de tantas vidas,
a fera da ira (anjo atroz)
no farfalhar de outro minuto.
Flor Solitária
Eu, flor solitária,
Embriagada de espaço e amor.
Flor do Medo
Flor minha do encanto... minha do canto...
minha do espanto de ser, eternamente, minha.
Flor-minha, que também é sua...
e nossa... e vossa... e de ninguém!...
Flor, assim emparedada,
tão atomicamente desenhada (hein, Vinicius?),
despetalada, de corpo e alma ofertada...
metalizada... apaixonada flor repetida...
e tida... e finalizada!
(e chega de besteirada!!)
Conferência
Na luz, agitam-se criaturas que invadem meus sonhos,
seduzindo-me o espírito em cor e murmúrios.
Travessia
Raspadas as tintas, o passado a espreitar...
velhas travessias, os mesmos mares revoltos,
as mesmas guerras repetidas
(ganhar ou perder é o que jamais importa...)
.
...e a brisa fresca de minhas cores novas começa a traçar,
em pinceladas conhecidas,
as outras rotas da mesma alma aprendiz
Observo
Meu desejo é um farol
A te guiar os beijos
Por minhas noturnas águas...
Respiro
Do outro lado da cidade o dia nasce
(já estava claro)
Tu vens... caminhamos!...
A Dama dos Becos
Eu, a dama dos becos,
Humor das pedras,
Bafio dos beijos desarticulados,
Quimera escura das frestas insuspeitadas,
Cruz angelical e negra de unhas, e riscos e mordaças,
Noiva sub-reptícia do desencanto...
Eu, a de braços abertos, sem nexo,
Reflexo das águas espessas,
Das línguas ardentes, dos tolos e gementes,
Das pontas e pontes e portas eternas
(escancaradas portas de meus sonhos iluminados...
meus celestiais e iluminados sonhos adolescentes);
Atriz do Tempo, sem morte, sem vida, sem data...
Noturna asa, a tremer, a incandescer, esquecida do mundo,
Em teu colo entardecente,
Deliciosamente adormeço!
Ouro
Anjo obscuro de um e de todos,
trânsfuga da luz,
mergulhado no mais fundo dos sonhos,
liberta de teus fios de sedução
as cores mais puras e belas de minh'alma:
tua alma escondida...
Esse
Esse que me segue cola em mim seu corpo leve,
Sussurra em meus ouvidos a música dos espíritos,
Invade meu coração num estremecer de saudade.
Esse é quem me abraça e me guia...
Esse, que me acompanha...
Esse que me segue.
Innervisions II
Aqui a casa, em mudos gestos envolta.
Janelas tristes a acenar desencantos...
.
(Que desejos se agitam nessa névoa fria?
Que pássaros interrompem, vacilantes, a rota desse medo?)
.
No jardim, as macieiras do Tempo
(atentas, belas, enternecidas)
.
Na estrada, sob o pó de meus passos,
Quimeras perdidas no murmurar do vento!
A Louca
Fragrância de nuvem a devastar meu peito...
Amor que me estanca e esgarça os medos...
Lua terna, por que ainda insistes em teu prelúdio doce?
Ouve o vento! Preenche as marés com meu sangue ácido,
estranha e dolorosa Lua, a iludir as ondas desta paixão sem rima...
Vê que meus beijos tangem novas tempestades,
e minha boca, amante, cristaliza a gargalhada entre os dedos.
Trip
Parcela de Teu sopro luminoso,
Contorno perfeito de Teu gesto,
Matéria Tua,
Teu ventre exposto em pulsar constante,
Desenho e corpo de Tua visão de Ti mesmo...
O belo de Teu traçado,
Silhueta precisa de Teus projetos,
Cálice escolhido em Tua festa de bênçãos,
Ao Teu ventre retorno,
Na terra em que me criaste,
No instante de amor que me previste,
Com o peito pleno de Tua desmedida beleza,
Na trilha palpitante de eternidade que me guardas...
Para Ti regresso... em Ti revivo... de Ti irradio o Infinito.
.
(para Mario
ele e eu, mesclados na massa divina do Universo)
Um Dia
Abro esta porta, em visita à eternidade
Teu olhar me acompanha, submerso nas águas do espanto
Vou sem teus passos a me seguir, como dantes
Deixo em teus braços, meus traços restantes
.
Em meu peito, cravado, este aceno
(ah... partir...!)
Em teu rosto, estampados, esta alma, este beijo
Este rio a fluir...