Suas mãos eram delicadas e inseguras. A pele muito fina, transparente; os dedos longos;
as veias saltando, azuis; a moldura de renda nos punhos...
Ela falava comigo, enquanto servia figos com queijo, ansiosa ao redor da mesa
imensa e escura. Sabia meu nome. "Como vai sua mãe?".
Era professora, ouvi dizer.
O pescoço longo e magro. O rosto pequeno. O cabelo ralo, escuro e curto,
levemente enrolado nas laterais. E a gola de renda, asfixiante.
Figos em calda, em sua casa cheia de móveis e vidros. Eu sentada, tão
miúda. Ela em pé ao meu lado, tão alta e transparente.
Nossas fragilidades em doce flerte.
Meu fascínio pela casa ficava além da porta do quintal. Por
isso estávamos ali, num ritual repetido... Eu comia a merenda, ela
abria a porta do jardim onde habitava a 'grande arvore' -
apavorante, noturna, estranha, bela.
Visitava a árvore regularmente. Encostada em seu tronco, a cabeça
levantada a me torturar o pescoço, os olhos admirados a percorrer com
paixão seus galhos poderosos.
"Você vai subir?", sussurra a moça.
"Eu quero, mas ela não deixa. Tem alguém muito bravo morando
nela. Alguém muito frio, escuro, grande. Um fogo verde. Um barulho
rouco. Uma ameaça. Um gemido abafado e mau. Um arrepio insuportável...".
"Credo, menina!".
Tocava seu tronco com dedos trêmulos. Carícia leve. Amor sem
limites. Queria desesperadamente subir, abraçar seus galhos, ralar
o rosto em sua pele rugosa, misturar seu gosto de seiva aos meus beijos, dormir
em suas forquilhas, entregue, silenciosa (eu, a dona dos sonos ruidosos, dos
gritos e das caminhadas noturnas).
"Eu quero, mas ela não deixa. Ela não deixa".
Na saída, a sala ancestral e a moça estiolada. Sem adeus, minha
solidão roçou a dela, num reconhecimento cálido.
"Até o próximo doce, professora".
"Até... menina".
"Suas mãos eram delicadas e inseguras"
imagem: "Ancestral"
©Guacira Sampaio Rocha
junho 2005
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