A ARTE DE GUACIRA SAMPAIO ROCHA 2008

Descemos da mangueira,
meu amigo e eu...

Descemos da mangueira, meu amigo e eu, empanturrados de mangas verdes. Sem resistir a elas, tão perfumadas, comemos uma e outra manga, e mais outra, e outra mais, gulosos e despreocupados, pulando sobre os galhos como passarinhos distraídos. Até que mareamos, inchamos (que maravilhosas barrigas!), ficamos sonolentos, lerdos, rindo à toa... E foi assim que chegamos ao chão.

"Vem me pegar, vem! Você não me pega!". Comecei a correr e a provocar meu amigo, já sentindo as pernas amolecerem de preguiça.
"Não pego? Olha só! Ninguém pode comigo - eu sou muito rápido".
Um encontrão, o vestido puxado, e caímos meio tontos, madurinhos e nauseados.
Meu amigo se levantou. Eu não.
Enquanto ele vomitava, eu tentava inutilmente dobrar a perna. Um peso enorme me prendia ao solo, o queixo ralado na terra áspera, um tremor incontido a balançar meu corpo.
Quando a dor veio comecei a gemer.
"O que você tem? Levanta logo daí. Minha mãe vai pensar que eu empurrei você - vou apanhar por causa disso. Levanta, levanta, por favor...". Aflito, ele tentava me ajudar a ficar em pé. Não foi possível. Minha perna não obedecia, pesada e estranha.
De repente o sangue começou a empapar a terra.
"Manheeeê...!", grita o amiguinho, com mais medo do sangue que de apanhar.

Vieram outras crianças, os bêbados do lugar, alguns passantes desocupados, vizinhos descalços, mulheres curiosas e, finalmente, a mãe do meu amigo.
Vi o garoto levar uns tapas, e chorar. Vi a mãe gritar com ele, chutar, perseguir, cuspir por todo lado.
"Quem mandou brincar com menina branca? E se ela morrer? Agora estamos perdidos. O pai dela vai acabar com a gente. Toma aqui, seu moleque. Toma aqui a chinelada, seu vadio".

Permaneci no chão, no meio da gritaria, até que meu pai, avisado, veio me buscar. Sem se importar com ninguém ao redor, estendeu os braços e me levantou com cuidado. Em seu colo, exausta, murmurei medrosa "a culpa foi minha, papai... eu caí sozinha... não mata meu amiguinho, por favor... não mata, papai... não mata!".
Papai sorriu. Ele sempre sorria, aborrecido ou não.

No hospital, meu joelho foi costurado de forma inesquecível. Sem anestesia ("não temos anestésico, doutor - levará dias para chegar - sua filha agüenta... crianças são resistentes..."), cuidaram de mim como foi possível, sob os gritos e as lágrimas de uma tortura sem sentido, naquele lugar distante.

Jamais pude rever meu companheiro, nem a mangueira generosa. A vida seguiu, e descruzou nossos caminhos.
Perdi um amigo; ganhei uma cicatriz, brilhante e rosada.
Ela me faz lembrar da mãe do menino negro.
Aquela mãe doeu muito nele... Doeu muito em mim.
Grande coisa!
Mamãe também costuma doer... Embora isso faça parte de outras cicatrizes...

 

"Descemos da mangueira"
imagem: "Vespertina"

©Guacira Sampaio Rocha
outubro 2005
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