A ARTE DE GUACIRA SAMPAIO ROCHA 2008

Os afogados
chegavam em silêncio

O s afogados chegavam em silêncio.
Alguns traziam consigo um som meio surdo, leve, grave como o bater das asas de um pássaro grande... O ruído de passos rápidos e conscientes, como se fosse um séquito real...
Mas só se percebia o silêncio.

Este vestia calção azul profundo.
Corpo muito branco, magro, jovem. Os músculos delicados desenhados com doçura.
Cabelos negros não muito curtos, lisos, embaralhados na cabeça pendente, o rosto voltado para baixo.
Carregado por outros homens, as costas para o céu, os braços riscando o chão.

Molhado... Gotejante...

Chegou na tarde nublada, sem traço de sol nem mesmo no horizonte. Tudo era cinza, morno, salgado... Silencioso.
Quando ele veio, o mar não pôde mais ser ouvido.
Mas o mar arranhava a areia, num rugido manso, culpado, soberano... E mesmo assim não podia ser ouvido.

A paisagem imensa envolveu aquele corpo em abandono – corpo de todos, zelosamente desenhado, esculpido entre gotas marinhas, aquarela apressada, castelo esquecido na parte alta da praia, fora da arrebentação, inútil e tardiamente seguro.

Deitada sob a castanheira habitual, o coração batendo devagar, de olhos fechados acariciei aquele corpo com meu hálito frágil, meu cheiro de tangerina silvestre, minha saliva doce de criança esquecida, meu medo envolvente do frio e do escuro, meu amor absolutamente disponível e fácil... Mas ele não pôde perceber... Não respondeu ao chamado... Não ouviu minha voz enfraquecida...

Presos ao silêncio permanecemos afogados na tarde.
Sem mim, sem me querer, embora eu o quisesse, deixei que fosse levado pelo tempo, por outros passos leves e preocupados, pelos sussurros doloridos dos estranhos, a dor aguda de quem o perdeu, o som do mar finalmente recuperado.

Na tarde longa de preguiça e sono, o afogado de calção azul.
Entrego meu corpo ao esquecimento, como ele, às águas, como ele, e como ele me aconchego em silêncio na areia amiga e segura...
Um dia, quem sabe, tardiamente.

 

"Os afogados chegavam em silêncio"
imagem: "Céu Aberto"

©Guacira Sampaio Rocha
abril 2008
Todos os direitos reservados

proibida a reprodução total ou parcial

deixe suas impressões deixe suas impressões