Osol da manhã subia de mansinho os altos degraus do quintal, até
a porta da cozinha de nossa casa.
Doce, molhado, amigo.
Ao toque de sua presença silenciosa aquele quintal exalava surpreendentes
tesouros - cheiros mornos, vapores coloridos, setas luminosas, sabores
pressentidos, zumbidos, babas, movimentos rastejantes...
"Vem comer, menina. Toma aqui o seu leite".
Não, mamãe, eu não quero! Cadê a espuma? Quero
meu leite com aquela espuminha gostosa.
"Que espuma? Não tem espuma nenhuma... toma o leite assim mesmo
- anda logo!".
Eu quero a minha espuma! Só tomo se tiver espuma! Não gosto
de leite, gosto de espuma, mamãe. Quero a espuma!
"Pois fique sabendo que aquela espuma é cuspe".
Mentira! Não é cuspe! É espuma!
Meu leite sempre tem espuma...
"Ora, menina aborrecida! Eu cuspo no seu leite todos os dias. Assim, está vendo? Estou cuspindo neste instante, com bastante espuma. Para de chorar e toma o leite. Agora!".
Peguei a xícara, cheia de leite e espuma, pesada em minhas mãos,
transgressora em meu ninho de ramas falsas.
De olhos fechados, lamentei sua textura, bebi seu néctar duvidoso.
Acomodei o espírito.
Menti para ele.
Contei-lhe outras histórias de manhãs quentes e brinquedos
novos sobre os muros de nossa rua. Entupi o nariz com Lágrimas de
Nossa Senhora (tão azuis), recém brotadas de seus arbustos
delicados. Estiquei meu corpo, bem escondido, no melhor pedaço de
terra escura, macia e perfumada... e afinal parei de chorar.
Retornei ao sol de todas as manhãs - gostosas, preguiçosas,
entorpecidas manhãs de minha infãncia eternamente repetida...
Agora, e para sempre, sem leite.
"O sol da manhã subia de mansinho"
imagem: "Buquê de Noiva"
©Guacira Sampaio Rocha
julho 2005
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