A ARTE DE GUACIRA SAMPAIO ROCHA 2008

Meu irmão nasceu roxinho
e feio...

Meu irmão nasceu roxinho e feio. A boca aberta, profunda, num grito estranho. Papai o trouxe de manhã, dentro de sua mala de viagem, e o deixou nascer em casa, na cama de minha mãe.
Todos gostavam dele. "Que bonitinho!" diziam.
Para mim parecia faminto e aprisionado... um pacotinho de pano, sem pés nem mãos. Fiquei invisível, desde então - nem tinha o que fazer. Mesmo assim, de vez em quando me ocupava dele. Diferente das outras pessoas da casa, sempre correndo de um lado para o outro, desempacotando o coitadinho, e empacotando novamente (obrigando o menino roxo a viver só de leite), eu ali ficava, ao pé da cama, por longo tempo só olhando, como a tomar consciência de minhas obrigações.
O tempo passou e a bulha diminuiu um pouco. O menino roxo (agora rosado) conseguia exalar um cheiro muito ruim, às vezes, e do pacotinho brotaram braços e mãos querendo alcançar sei lá o que. Horrível!
Um dia, ele chorou e ninguém correu para ver. Eu vi. Quis ajudar.
"Ele precisa de açúcar" pensei.
Fui até a cozinha, puxei a cadeira para debaixo da caixinha presa lá no alto da parede, subi, abri a tampa da caixa e peguei a maior pedra de açúcar que pude encontrar. Corri até o quarto, e coloquei a pedra (tão branquinha) na boca aberta do pacotinho faminto.
Ele espumou. Uma espuma grande, bonita. E pela primeira vez na vida, parece que falou, baixinho, uma coisa qualquer. Fiquei feliz. Era assim que tinha de ser.

"Mas o que é isso? Parece sal! Sal? Quem colocou sal na boca dessa criança? Foi você, menina? Você colocou sal na boca do seu irmão?".
"Sim, fui eu".
"Por que, pelo amor de Deus? Por que fez isso?".
"Ele pediu, mamãe. Você não ouviu?".
"Ele pediu".

Levei uns tapas doídos (por que?), a cadeira voltou ao seu lugar, e a caixa de açúcar, lá no alto da parede, nunca mais foi vista.

 

"Meu irmão nasceu roxinho"
imagem: "Botões Entrelaçados"

©Guacira Sampaio Rocha
junho 2005
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