Meu irmão nasceu roxinho e feio. A boca aberta, profunda, num grito estranho.
Papai o trouxe de manhã, dentro de sua mala de viagem, e o deixou
nascer em casa, na cama de minha mãe.
Todos gostavam dele. "Que bonitinho!" diziam.
Para mim parecia faminto e aprisionado... um pacotinho de pano, sem pés
nem mãos. Fiquei invisível, desde então - nem
tinha o que fazer. Mesmo assim, de vez em quando me ocupava dele. Diferente
das outras pessoas da casa, sempre correndo de um lado para o outro, desempacotando
o coitadinho, e empacotando novamente (obrigando o menino roxo a viver só
de leite), eu ali ficava, ao pé da cama, por longo tempo só
olhando, como a tomar consciência de minhas obrigações.
O tempo passou e a bulha diminuiu um pouco. O menino roxo (agora rosado)
conseguia exalar um cheiro muito ruim, às vezes, e do pacotinho brotaram
braços e mãos querendo alcançar sei lá o que.
Horrível!
Um dia, ele chorou e ninguém correu para ver. Eu vi. Quis ajudar.
"Ele precisa de açúcar" pensei.
Fui até a cozinha, puxei a cadeira para debaixo da caixinha presa
lá no alto da parede, subi, abri a tampa da caixa e peguei a maior
pedra de açúcar que pude encontrar. Corri até o quarto,
e coloquei a pedra (tão branquinha) na boca aberta do pacotinho faminto.
Ele espumou. Uma espuma grande, bonita. E pela primeira vez na vida, parece
que falou, baixinho, uma coisa qualquer. Fiquei feliz. Era assim que tinha de ser.
"Mas o que é isso? Parece sal! Sal? Quem colocou sal na boca
dessa criança? Foi você, menina? Você colocou sal na
boca do seu irmão?".
"Sim, fui eu".
"Por que, pelo amor de Deus? Por que fez isso?".
"Ele pediu, mamãe. Você não ouviu?".
"Ele pediu".
Levei uns tapas doídos (por que?), a cadeira voltou ao seu lugar, e a caixa de açúcar, lá no alto da parede, nunca mais foi vista.
"Meu irmão nasceu roxinho"
imagem: "Botões Entrelaçados"
©Guacira Sampaio Rocha
junho 2005
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