Alâmina do meu amigo, novinha e afiada, escapou de minhas mãos, fazendo uma
pirueta brilhante no ar. Antes de cair, tocou de leve meu braço esquerdo,
deixando um lindo e perfeito traço vermelho. Vi o sangue brotar lentamente,
vivo, manso, em pequenas bolhas, como num colar de contas, sem dor e sem
medo.
Ficamos extasiados, meu amigo e eu.
Recuperei a lâmina, com calma, e coloquei-a na boca, sobre a língua.
Fria e delicada.
Mas pra quê? O que fazer com esse gosto em minha boca?
Novamente nas mãos, brinquei com ela sobre o risco vermelho do braço.
Novo corte, belo, intrigante, alegre em suas bolinhas espaçadas.
"Não dói? Não arde? Posso fazer também?"
(meu amigo me abraça, assombrado).
"Já, já... Espera só um pouquinho...".
Mais um corte, mais um traço, novo encanto!
Tirei o vestido e comecei a desenhar com a lâmina mágica sobre
a pele lisa e branca. Que contraste impressionante! Que labirinto de ruas
e contornos! Quantas retas cruzadas e pontilhadas! Impossível parar...
"Anda logo! Me dá! Quero fazer igual!" (ele treme, se
agita).
"Espera um pouco - eu deixo você desenhar também.
Espera só mais um pouquinho".
Movimentos soltos, simples e complexos, curvos e retos, horizontais e verticais...
e o meu corpo inteiro comprometido com a grande obra de minha vida... única,
mestra, definitiva!
"O que fazem as crianças, tão quietinhas, no quintal?
Mas que gracinha que elas são! Deixa ver seus brinquedinhos...
Oh, que horror! Você está sangrando, menina! O que foi que
vocês fizeram? Vou chamar sua mãe! Onde arranjou essa gilete?
Oh, meu Deus... o tempo vai fechar por aqui!...".
Mamãe veio e me arrastou aos trancos, pelo braço, até
nossa casa, do outro lado da rua.
"Você me deixa louca, menina! Nunca vi nada semelhante a isso.
Não dói, é? Pois vamos ver!".
Lavada e esfregada com fúria, nem assim senti dor.
Fiquei olhando para ela, em busca de alento, enquanto suas unhas longas
eram cravadas em meu braço, como espinhos perigosos. Seu rosto era
o mesmo de todos os dias, pleno de raiva, os lábios apertados de
indignação.
Implorei. Gritei. Bati as pernas. Dobrei o corpo...
"Não, mamãe! Está doendo! Os espinhos em meu
braço... por favor... eu não faço mais... eu juro...
Tira os espinhos do meu braço, mamãe!".
Alguns espinhos são difíceis de arrancar. Os meus ficaram
para sempre... Na pele, no coração, no espaço, nas
estrelas. Ainda posso vê-los flutuando no céu das noites tristes,
e posso sentir o seu aperto firme em minha alma.
A lembrança do meu corpo, riscado e desenhado, permanece a melhor
tela de minha vida.
"A lâmina do meu amigo"
imagem: "Accendi una Luna"
©Guacira Sampaio Rocha
agosto 2005
Todos os direitos reservados
proibida a reprodução total ou parcial