Ele passou do outro lado da calçada.
Aquela foi a primeira e última vez que o vi em minha rua.
Passadas largas, pés grandes. Ele era seus pés, suas mãos,
rosto, olhos, sorriso... E a pele muito branca.
Passou diante da minha casa, da minha vidraça (a janela alta, estreita),
do meu olhar vadio e solitário.
E eu vi os seus olhos levemente risonhos, enviesados, atravessados, cúmplices...
e sei lá porque, seu brilho de estrela.
Senti o cheiro de bala e sorvete a flutuar no movimento (bailarino) de sua capa
escura, a lhe envolver completamente o corpo, menos as mãos -
suas mãos de pássaro, brancas, docemente indecisas, longas,
frágeis, urgentes, às vezes invisíveis.
Quis gritar por ele, sem saber seu nome. Fiquei histérica. Bati no
vidro da janela, com os punhos fechados, fazendo um barulho inútil
com minhas mãos tão pequenas, meu corpo em febre.
"Amigo! Amigo! Amigo!".
Ele viu minha mãe. Viu a babá (menina). E seguiu, parecendo
não ter visto ninguém.
"Amigo coisa nenhuma. Quem disse que uma menina de quatro anos tem
amigos? Um vagabundo de rua, como esse, pode ser seu amigo? Anda pelos bares,
pela praça, como um louco, um ninguém.
Não quero que o veja mais. Ele é doente. Morfético.
Aquela pele branca... tão alto e tão seco... é claro
que é morfético... vagabundo! Você fica em casa!".
Com a dor da impotência a me invadir a alma, o rosto colado no vão
da porta, a certeza da perda definitiva (pela primeira vez em minha vida),
chorei de raiva, medo e cansaço.
Meu amigo desapareceu para sempre. Nunca mais o vi. Procurei pela praça,
pelos bares, em todas as ruas. Atravessei todas as portas abertas.
Só olhava, sem perguntas - andarilha, absorta, triste, vazia.
Desisti.
"Ele passou do outro lado da calçada"
imagem: "Anelando"
©Guacira Sampaio Rocha
junho 2005
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