Guacira Sampaio Rocha

os arquivos aqui apresentados foram cedidos por amigos que,
surpreendentemente, os tinham entre seus guardados

As fotos

foto by Edilson
foto by Edilson - 1975
foto by Edilson - 1975
foto by Casimiro de Mendonça - Folha da Tarde 1970
SP - 1974
com Giovanni 1974
praia do Forte Bahia - 2001
Igreja do Bomfim Bahia - 2001

A crítica

O "DAIMON" de Guacira


Tal uma rã miúda de chuvosa primavera, é na cheia da lua de novembro, nos primeiros aguaceiros, que a Guacira laboriosa chega. De obras ela expõe uma dúzia que são doze paisagens de Galáxias desfeitas, doze poemas preguiçosos em forma de sereia, doze contos selênicos do astro-flor sonhando em lençóis de mármore-rosa. Enigmáticos girinos brotejam no índigo dos igarapés e cirandas de águas vivas flutuam em maré cheia - as fadas de nádegas nuas desfraldam os doze estandartes da festa de ASDRAEL, o daimon de Guacira.


Michel Veber
novembro - 1975

Notas de Arte


Guacira, depois de verdadeiras pesquisas, depois de um árduo trabalho, encontrou a sua linguagem, com a qual já consegue exprimir-se plásticamente, sem tropeçar na literatice. Sim, a jovem pintora, em poucas tintas, estrutura o desenho, expressando o seu mundo interior. Com uma técnica de veladura, o carmim, o branco, o ocre e a sépia, transparente, se amalgamam, alevantando o assunto objetivado, num rítmo compassado, harmonizando a composição surrealista - o quadro.


Quirino da Silva
Diário de São Paulo
setembro - 1970

A melhor coisa que vi em desenho nos últimos vinte anos... no Brasil, pelo menos.


Pietro Maria Bardi
a Paulo Arena e Lina Bo Bardi
após ser apresentado aos primeiros desenhos, em grafite, de Guacira
São Paulo - 1966

Notas de Arte


Guacira é muito jovem e não sabe porque alguém já disse que os seus desenhos lembram a Belle-Epoque. Não sabe e nem quer saber. Suas linhas se entrelaçam, se apertam - e, às vezes, se interrompem a fim de dizer do ímpeto emocional da jovem desenhista. Um mundo de sonho e realidade se abalroa num incontido sensualismo que, patinado por uma fina sensibilidade, acentua pormenores a revelar a inquietação de sua alma. A poetiza e pintora Lilia A. Pereira da Silva, referindo-se a obra gráfica de Guacira, diz: O mundo onírico da jovem Guacira Marta surpreendeu-me. Sua força artística entrelaça o consciente e o inconsciente em paisagens autênticas do lírico-mórbido que extravasa de suas mãos. Expressa-se através de raríssima sensibilidade - daquela sensibilidade de que só os grandes artistas podem nutrir-se.


Quirino da Silva
aos Diários
dezembro - 1967

Reportagens

O ESTADO DE S.PAULO - 21/08/69
por Arthur Laranjeira

nota: nos corredores do pavilhão da Bienal, por ocasião desta matéria, reinava o caos mais absoluto - os quadros inscritos, e recusados, acumulavam-se por todos os lados, em meio a caixas enormes de embalagens, papéis, escadas e martelos... e era muito difícil localizar alguma coisa nesse ambiente de preparação que antecede a abertura da exposição.

Resumo da matéria:

O Estado de São Paulo - 21/08/69 - por Arthur Laranjeira

...Anda pelos corredores da Bienal, procura seus quadros. Ninguém sabe dizer onde estão os quadros de Guacira. Com 23 anos, a artista mais jovem da sala (entre os vinte e cinco artistas convidados para representar o Brasil na X Bienal de São Paulo), foi uma surpresa para ela ser escolhida: no máximo esperava entrar para a Sala de Novos Valores. Guacira está cansada, não encontra seus quadros. Tem sede, e não para de fumar. Já nem lembra seu número de inscrição. Olha os trabalhos de Marina Caram, Daniel Zirola Luis, Iazid Thame, Vinicius Pradella. O funcionário olha em um livro grande. Encontra o número de lá: "É Guacira Marta Sampaio Rocha, não é?" - "É" - "Então devem estar numa sala lá do outro lado". Começa a procurar, de novo: obras recusadas, trabalhos de vários estilos, tudo está misturado pelos corredores da Bienal. "O abstracionismo não é também fantástico? Tudo é fantástico, até viver, comer, sonhar". Agora ela procura seus quadros, seu mundo. Antes escrevia poesia - guardou algumas, mas não gosta de falar do que escreveu. ->

"O problema eram as palavras. Era preciso usá-las para descrever coisas que tinham cor e movimento. 'Contar' uma experiência é diferente de 'mostrar' uma experiência". Nos corredores da Bienal ela tem certeza de que ninguém tocará em suas pinturas. Encontra seus quadros - quadros em sépia com luas claras - "Não podem ser explicados nem descritos: precisam ser vistos" - (tiramos as fotos - fazemos a matéria para ser publicada antes da inauguração da mostra, em meio ao caos em que ainda se encontram aqueles corredores). O funcionário pede desculpas porque a moldura de um dos quadros ficou estragada. Guacira está cansada, nem dá importância: será fácil ajeitar. Voltamos para a casa onde mora, na Alameda Santos. Acende outro cigarro, fica calada. À noite, estará pintando até amanhecer. Sem dar importância para associações, grupos, "torres de marfim", sem ligar para nada. Só para o fantástico. O disco 2001 toca na vitrola. "O futuro é fantástico!"°

Diários - 19/08/69
por Rodney Neves de Mello
 foto: Luis Cerasoll

Resumo da matéria:
"Guacira é assim e não pretende mudar"

Guacira não se prende às regras clássicas de unidade de tempo, lugar e ação. Ela mesma não sabe o que vai fazer amanhã ou depois. Sabe que existe, que é bom viver. Vê-se como uma dançarina que acompanha o ritmo da música sem se preocupar com o passo seguinte - como um arqueólogo que de repente encontrasse um objeto muito antigo e precioso - como o maestro que se irrita com o tempo atrasado da execução, e agita violentamente a batuta para conseguir o ritmo certo de sua orquestra.
Guacira é assim e não pretende mudar. Seu mundo é o universo plástico. A música, o teatro, as artes todas, a vida enfim, devem ser plásticos. A própria maneira de vestir deve refletir o prazer.
Guacira é assim, e foi assim que ela se tornou a mais jovem artista brasileira (23 anos) a ter quadros classificados para representar o Brasil na X Bienal de S.Paulo


O PRAZER
Colocada em peça sua vida teria um único ato: o de amar a vida. "Chamam-me de rebelde por isso".
Olha seu primeiro desenho: "Esta foi minha

primeira loucura. Um trabalho que durou quatro meses, e que me enchia de dúvidas quanto a sua aceitação, pois eu comecei a sentir que fazia algo diferente. Não sigo regras - tudo o que faço é pelo prazer de fazer". Guacira gosta de tudo o que faz, mas não consegue fazer tudo o que gostaria. Falta-lhe tempo para estudar mais profundamente a música, a literatura, o teatro como quer. Adora dançar, conversar, ser honesta e mandar embora alguém que a está aborrecendo. Adora o clima da noite, feito de paz. Sempre, sem se prender a qualquer chão que pudesse considerar seu, mudou-se constantemente, deixando de cada vez, no passado, as recordações e os objetos dos tempos passados.
Muitos dos artistas que conhece "estão cheirando a môfo. Gostaria que fossem mais espontãneos, mais eles mesmos, que vivessem mais à vontade, que se guiassem menos pela razão e mais pelos instintos".
Por fim a frase de insatisfação da artista: "Vou morrer sem ter realizado a metade do que desejei".
Vai viver amando a vida e fazendo apenas o que desejou.°

O ESTADO DE S.PAULO - 1970
foto na redação do jornal

Resumo da matéria:

Duas exposições se destacam no quadro das inaugurações hoje em S.Paulo: Danielle Oppi vai expor na Cosme Velho e Guacira na A Galeria.

"No meu trabalho a figura tem mínima importância, é só complemento - é a cor que cria o essencial", diz a artista de 24 anos que pinta desde agosto de '68. Sua pintura começou cósmica, abstrata.

Depois, foi-se transformando até surgir a Arte Fantástica, como a série de óleos, "Luas e Bichos", que foi exposta na última Bienal de São Paulo. Nesta série, as figuras se misturam, entrando e saindo da paisagem.°

nota: Guacira e Oppi nasceram, ambos, em 9 de fevereiro - ele, em Milano, Itália, 1932; ela, no Espírito Santo do Pinhal, S.Paulo, 1946. Ambos alternam a pintura com poesia.°

Guacira Sampaio Rocha participou de várias exposições e salões de arte no Brasil e Europa. Possui pinturas e desenhos em acervos particulares no Brasil, Europa e Estados Unidos. Após sua primeira medalha de ouro, no I Salão de Artes Plásticas de Atibaia - SP, tem conquistado inúmeros prêmios e menções especiais em exposições e salões de que tem participado. Atualmente reside em sua casa de campo, no interior de São Paulo, pintando e dedicando-se, entre seus inúmeros "hobbies", a desenvolver desenhos utilizando-se de programas gráficos para computador. Com a presente página vem mostrar alguns dos fatos que pautaram o início de sua carreira quando, ainda muito jovem e inexperiente, viu-se repentinamente alvo das atenções de alguns críticos de arte da época, e consequente presença na mídia escrita. Mais não foi possível guardar, e nem foi do interesse da artista em manter os registros de sua trajetória. Sua história ainda está sendo escrita e vivida, prazerosamente.

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